5 anos de WWE no Brasil – 24/05/2012

Eu, meu pai e a WWE no Brasil.

Eu comecei a escrever um texto sobre a WWE no Brasil, mas apaguei, não gostei do que escrevi. Todo mundo pode falar como aquele dia foi foda. Sim, todas as quatro letras, FODA. Qualquer um que estava lá, até mesmo os que não, conseguem exprimir toda a grandiosidade que foi ter os Wrestlers mais badalados do mundo em nosso território. Eles falavam português, apertavam nossas mãos, chutavam nossa bandeira e também se enrolavam nela com orgulho, eram nossos por um dia. Por um dia a coisa que eu mais gostava na vida era real.

Isso tudo você que está lendo você mesmo podia ter escrito, mas o que se segue não. Com 14 anos de idade meu único modo de entretenimento era o Wrestling. Eu lia pouquíssimos quadrinhos, só o básico, ver filmes então nem se fala, via o que me recomendavam e não entendia nada. Eu não tinha lugares favoritos e nem saía muito, quando meus amigos queriam me ver, vinham no meu portão, porque esse era meu limite auto imposto. Meu jeito de sair de casa era a luta livre, através de um notebook Samsung eu acessava todo o conteúdo sobre WWE que eu conseguia consumir, via todos os shows semanais, via TNA e revia shows antigos pois, para mim, era só o que existia.

Mais importante que isso: WWE era, na época, o principal assunto que unia eu e meu pai.

Futebol? Não. Meu pai é flamenguista nascido no Rio, na época recebendo muitos comentários espinhosos meus pela precoce eliminação do Rubro Negro na Libertadores. Musica? Até que sim. Fomos, a família inteira, em um show naquele mesmo mês, mas ainda não compartilhávamos e nem compartilhamos, atualmente, um gosto parecido, nem somos músicos para comentar acordes e notas. Religião era a única coisa que tínhamos em comum, mas sempre enxergamos as coisas de um modo muito diferente e nossos papeis naquele ciclo eram imensamente distintos.

Então era na WWE que nossos gostos se encontravam. Toda semana, no mínimo uma vez, ele assistia alguma luta comigo, as vezes até repetíamos as lutas que gostávamos. Pra ele não devia ser muito cômodo, trabalhava bastante e eu não era um adolescente acessível, nunca fui uma pessoa fácil. Mesmo assim, nos divertíamos e quando a WWE anunciou sua vinda ao Brasil ele, junto da minha mãe, não hesitaram em gastar o dinheiro que tinham pra comprar os ingressos. Sim, no plural.

Ele iria comigo, era a única condição de meus pais, já que eu não poderia ir sozinho. Voltando no tempo, caso fosse possível, eu imporia essa condição a mim mesmo e diria praquele menino chato que havia recém decidido deixar o cabelo crescer: “Chama ele pra ir”.

Eu me recordo que fiquei desesperado quando li, em um tópico da saudosa WU, o título “WWE no Brasil cancelada”. Era dia 23 já, eu já estava pronto pra ir e esperava a hora de meu pai chegar em casa; foi uma pancada na cara! Entretanto, eu me acalmei quando li que “o evento foi passado para o dia 24 de maio. UFA QUE SUSTO! Pelo menos eu conseguiria ver o Corinthians. E deu, foi o 1×0 mais emocionante que eu vi na vida, o mais perto que eu cheguei de um infarto e um dos momentos mais legais que eu passei com meu avô, mas isso é papo pra outro texto,

Passou a noite, a vitória sobre o Vasco já havia assentado em meu coração e a ansiedade voltava para dentro de mim. As 16 saímos de casa. Ouvimos um álbum recomendado por uma amiga no carro, pedimos ajuda para um Taxista no caminho e conversamos bastante. Antes de entrar no ginásio, passamos em um McDonalds para almoçar. Entrando naquele estabelecimento meus olhos ascenderam pela primeira vez e eu me senti em casa. Camisetas do Steve Austin, John Cena (na época de camiseta verde), Kofi Kingston e CM Punk, este no auge de sua popularidade e em seu reinado histórico como WWE Champion, encapavam o ambiente corriqueiro. Era diferente aquilo, era pessoal, era ao vivo e era meu universo. Tudo o que eu mais amava na vida estava ali, tudo mesmo.

Passamos por JTG, Brodus Clay, A-Ry, Curt Hawkins e Curtis Axel (na época Michael Mcgillicuty), Wrestlers que ali pareciam muito maiores do que o descaso que eu dava a eles semanalmente. Passamos por John Cena, Dolph Ziggler, R-Truth, Kofi Kingston, Beth Phoenix (Hall Of Fame) The Miz, Zack Ryder (mais popular impossível) e o campeão e supracitado CM Punk. Ah, claro, como eu pude esquecer? Tinhamos o Deus do Wrestling, Chris Jericho. Sim, eu vi o Chris Jericho de perto, vi ele quase ser preso. EU RESPIREI O MESMO AR QUE CHRIS JERICHO.

De relance, também pude ver o Dean Malenko atrás das cortinas dando uma espiada. Foi uma noite e tanto. No intervalo fiquei sabendo que o Corinthians pegaria o Santos nas semifinais da libertadores. Nesse mesmo intervalo eu pude conversar novamente com as pessoas que eu nunca mais vi na vida, mas aquelas das quais eu lembro muito bem os rostos e vozes. Mas por que falar de tudo isso e não falar do Jericho chutando a bandeira? Não falar que nós vimos uma falsa troca de Title? Não falar que a gente gritava “Batista” pro Mason Ryan?

Bom, porque para isso existem os vídeos (em alguns até dá para me ver), existem várias outras coisas que você pode consumir que vão te dar essa noção do quão importante isso foi para o cenário nacional. O que importa pra mim é ouvir meu “velho” falando até hoje:

– Vi (minha mãe), o legal é que eles sabem todos os gritos e sabe, um puxa um grito e de repente tá todo mundo gritando. Maior barato, pessoal é fã mesmo.

Minha mãe geralmente ri. Hoje em dia eu também assisto luta livre com ela, as vezes.

Na volta do evento, eu dormi no carro. Meu pai, solitário, nos trouxe de volta a casa. E é assim que o Wrestling também funciona comigo. Ele serve pra proporcionar momentos que eu vou me lembrar com pessoas que eu amo. Alguns dos meus melhores amigos vieram por causa dele (por exemplo os três outros energúmenos desse site), vários momentos felizes, várias ocasiões em que uma tristeza terrível foi embora só pelo fato de eu assistir e dividir essa atividade, o PipeBomb veio no mesmo ano em que isso aconteceu. Quando minhas memórias forem comida na pança de uma minhoca, ela vai saber desse momento que eu tive com meu pai. Uma ocasião que ninguém vai roubar de nós, de todos nós que estávamos lá, só que cada um com sua história.

No outro dia acordei cedo e fui para a escola, tinha prova de Geografia. Acho que fui bem.

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