Da Boca para Fora 2# – Não há tira (BLAM!) sem contexto

Como as tiras de quadrinhos se relacionam com a situação política e social do Brasil

 

Arte não acontece no vácuo. O ato de sentar em uma cadeira frente à prancheta ou ao computador de Photoshop aberto não ocorre isolado do mundo; desse ambiente surgem, há mais de um século, as tiras em quadrinhos. No Brasil, desde Sisson, que retratatou os costumes amorosos do Rio de Janeiro de 1855, no primeiro quadrinho brasileiro, até Thaïs Gualberto com sua Olga, a Sexóloga, em que transmite a vida de uma mulher em 2018, as tiras sempre foram um fruto de sua época, da política do país e de sua situação social.

Será?

“Tudo é política” respondeu Henrique de Souza Filho, cartunista mineiro nacionalmente conhecido como Henfil, em entrevista ao Vox Populi da TV Cultura, exibido em 1978. Para o artista, era impossível dissociar um do outro. Ele declarava que mesmo o não fazer diretamente sobre política seria, em si, um ato político. Criador de personagens como Graúna, Zé Ferino, os Fradinhos e Ubaldo, o Paranoico, Henfil atuou em vários tipos de arte. Já no âmbito político, além de ser um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, também participou das campanhas de Diretas já!  (slogan de sua autoria). Considerava seu trabalho em jornal como mais que uma simples arte, mas um serviço público. Ele usava a identificação com o povo para o humor, mesmo em seus trabalhos com futebol, quando associou o Urubu ao Flamengo, animal que se tornou a mascote do time desde então. Morreu em 1988, vítima de Aids decorrente de uma transfusão de sangue devido à sua hemofilia.

Trinta anos depois de sua morte e 40 anos após a entrevista, o Brasil de sua época mudou, mas continua em ebulição. Se em 1978 buscava-se ainda, o voto, em 2018 se procura em quem votar, com uma classe política cada vez mais desacreditada e três poderes se digladiando pelo poder do País. Pessoas sumiam na época da Ditadura; uma vereadora e seu motorista são executados dentro do carro em um suposto assalto, vereadora que investigava os militares nas ruas no Rio, na atual década. Tantas diferenças e tantas semelhanças. Nos jornais as tiras ainda existem, mas não na mesma quantidade nem com a mesma força. Grande parte dos autores publica seu material, hoje em dia, na internet, em meio aos caracteres e fotos de milhões.

Para Benett chargista da Folha e criador do personagem de tiras “Amok” com o qual já publicou, pela editora Mórula, um livro: Amok – Cabeça, Tronco e Membros, isso não significa perda de força: “As tiras não mudam, o que muda é o veículo. Antes eram os impressos, hoje é o Instagram, o Twitter”. Para o autor, as comics strips serão sempre “uma grande ideia desenhada em poucos quadros, com poucas palavras, o formato ideal para a internet”, afirma.

Nascido em Ponta Grossa, no Paraná, Alberto Benett já publicou também pela Gazeta do Povo e hoje, publica suas tiras online, seja pelas redes citadas ou em seu site cartunistabenett.wordpress.com. Uma das mais recentes, sobre o incêndio e desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida em São Paulo, em que o autor retrata médicos e bombeiros indo ao socorro, enquanto o presidente Michel Temer brada “Vim ver as câmeras!”, recebeu mais de 400 curtidas no Twitter entre republicações do perfil Mídia Ninja e do jornalista George Marques. Em contrapartida, para ele, os jornais impressos não têm quase nenhum impacto como veiculador de quadrinhos, exceção à Folha e o Globo, em razão das tiras de André Dahmer, autor dos Quadrinhos dos Anos 10 e Os Malvados.  “Talvez eles só existem ainda por causa do [André] Dahmer, rs” brinca Benett no e-mail.

Ao contrário de Dahmer ou de sua tira supracitada na qual desenha o líder do executivo, Alberto não é sempre tão direto quanto a política em suas tiras. Pergunto então se elas eram, ao menos, reflexos da política nacional de certa forma. “Não diria reflexos mas digo que foram afetadas. Falar de política é também falar de amor. Amor pela democracia e liberdade de expressão, algo que o obscurantismo está tentando fazer as pessoas acreditarem que não é tão importante assim. Falar sobre costumes, é falar contra homofobia, contra racismo, e ser contra armas é, definitivamente, uma postura existencialista”. Ele ainda adiciona a sua lista de tópicos, aqueles amores incompreensíveis por um mito, por exemplo, que entram na área de psicologia de massas das tiras em quadrinhos. Para ele o importante é ser honesto e autêntico, falar sobre aquilo que incomoda.

Apesar de seu trabalho prolífico, Benett afirmou que está, atualmente, em uma espécie de “voto de silêncio mental”, em que fala menos e tenta deixar que os desenhos passem sua mensagem, em oposição ao que fez em toda sua carreira até o momento, quando o desenho era secundário, somente um veículo para a ideia, protagonista. Mas confessa: “Não tenho desenhado muitas pessoas…tenho desenhado mais animais… O que é melhor para a saúde, convenhamos”. E conclui: “Especialmente se formos falar das pessoas do Brasil”.

Mas não só de tiras atuais vive o mercado. Não há monopólio quando o assunto é falar sobre o país no qual vivemos hoje. “Para entender o futuro é preciso conhecer o passado”, diz o clichê e é nessa frase que moram as republicações. Ao passo que a produção atual reflete e conversa com o cenário socio-político vigente, é plausível que as republicações façam o mesmo, de outro modo: em um processo de quase futurismo, retratando no passado acontecimentos presentes. “Mais do que conversar com o cenário atual, elas servem de base para muitos autores e leitores” diz a voz em minha caixa do Facebook Messenger, “[a republicação] É muito importante para que tenhamos uma memória iconográfica e bibliográfica do que saiu de tiras no Brasil”.

A voz em questão é de Sidney Gusman, jornalista, editor-chefe do site Universo HQ (no ar desde o ano 2000) e editor da Mauricio de Sousa Produções (MSP). Antes de começarmos ele me alertou: “Meu tempo está bem corrido, eu não sei se posso de ajudar”, depois sugeriu responder via áudio. Como parte da MSP, Gusman foi a mente por trás da Graphics MSP, projeto de sucesso em que outros autores fazem obras fechadas em reinterpretações das personagens de Mauricio de Sousa, muitos desses nascidos nas tiras. Entre os autores convidados, alguns também tiveram sua experiência com o formato, como é o caso de Vitor Cafaggi (Valente), Luiz Felipe Garrocho (Bufas Danadas), Orlandeli (Mundo de Yang, Grump) e Lu Cafaggi (Los Pantozelos). Este cargo dentro da empresa de Mauricio de Sousa também possibilitou a Sidney editar, pela editora Panini, As Tiras Clássicas do Pelézinho (2 volumes) e as As Tiras Clássicas da Turma da Mônica, e pela editora L&PM, no selo L&PM Pocket Books, Os Sousa e Nico Demo.

Falar de Mônica é falar da personagem cultural mais reconhecível do Brasil. Surgindo nas tiras publicadas pela Folha de São Paulo em 1963, a personagem é embaixadora da Unicef, passou por Geisel, Collor, Dilma, Temer; virou quadrinho, vai virar filme, virou Graphic Novel, tudo com sua turminha. Também está presente em inúmeros produtos licenciados (de maçãs a mochilas). Agora Os Sousa, Nico Demo, esses já são outra seara. O próprio Sidney admite e, por isso, vê com olhos ainda mais brilhantes tais lançamentos. “O leitor precisa conhecer”, disse-me o jornalista em 21 de abril, um sábado, quando os áudios foram gravados. “Pouquíssima gente sabia que o Mauricio tinha feito tiras como Os Sousa, que é muito politicamente incorreto, e Nico Demo, que é mais ainda.” Em um primeiro olhar pode parecer que Mauricio, criador de tiras infantis, está em um campo de atuação totalmente diferente do político ou o social, mas como o principal nome do quadrinho nacional e, possivelmente, o único brasileiro a, de fato, enriquecer com a mídia, conhecer sua obra e a evolução pela qual passou está intimamente ligado à identidade brasileira e à visão que o cidadão tem de si mesmo, influenciando diretamente em seu comportamento. “Acho fundamental, não só para pesquisa, mas para que novos leitores conheçam mais sobre um autor consagrado”, afirma Sidão, apelido pelo qual é conhecido no meio editorial, mas adverte que “evidentemente, tudo isso tem que ser lido com o devido distanciamento histórico, para que faça sentido para o leitor, sendo assim possível desenvolver o pensamento crítico e ético”.

Além da identidade nacional, tiras infantis como a da turminha formaram, durante muitos anos, leitores de jornais. Esse trabalho, através da alfabetização, tanto para com as letras, como uma alfabetização com os próprios quadrinhos, trouxe os infantis à leitura diária. Histórias como as da Turma do Limoeiro foram fundamentais nesse aspecto, até mesmo na formação de uma “força de trabalho” como disse Henfil na mesma reportagem de parágrafos atrás. Gusman concorda que as tiras já tiveram essa força, mas não acredita que a possuam no tempo presente. “A maioria do público do Carlos Ruas, do Will Tirando, do Fábio Coala são adultos, cara”, desabafa, “então eu fico muito preocupado, de verdade, em ver como isso vai mudar”. Além de não formarem mais leitores infantis com relação aos quadrinhos em geral, a mídia das tiras também falha quando o assunto é trazer a criança ao jornal. “Acho que o grande problema reside no fato de que é muito raro uma criança ler o jornal, se não for uma aberração” e relembra os tempos de infância quando o pai pegava o jornal, Estadão, da qual eram assinantes ou Folha da Tarde, jornal que recebiam na firma em que o pai trabalhava, e ele ia ler as tiras.

“A diversão da molecada, hoje em dia, é o canal do Youtube, é diferente”, diz ele em seguida e estende suas preocupações também com relação aos artistas: “Pouquíssimos autores estão trabalhando com tiras para o mercado infantil, a maioria trabalha com o público jovem-adulto ou adulto”. Voltando a falar sobre tiras de uma época mais remota, ele relembra nomes como Angeli, Ziraldo, Laerte e diz: “Feliz de um país que tem em uma ponta Mauricio de Sousa e na outra Henfil!”

Outra pessoa que trouxe nomes semelhantes à tona foi Sergio Codespoti, redator do Universo HQ, tradutor e Design Gráfico que reside, atualmente, em Luxemburgo. A Laerte, que pública na Folha de São Paulo até hoje, foi criadora de personagens como o Síndico, o Gato, os Piratas do Tietê, sendo referência nas tiras tanto para artistas quanto para o público. Ao lado dela, Angeli forma o segundo terço da trinca paulistana (que se completa com Glauco) de grandes “tiristas”; na conta de Angeli estão Rê Bordosa, Os Escrotinhos, Bob Cuspe, Geraldão e muitos outros periódicos de extrema inteligência que não estavam associados a nenhum desses personagens. Para Sergio, esses dois nomes vêm à mente pois a arte por eles produzida viveu aquelas décadas de 80 e 90 junto com ele próprio. Mesmo assim ele ressalta: “Existem tantos que mencionar somente dois nomes é uma injustiça”.

Codespoti, além de ter sido formado como leitor pelas tiras brasileiras, também é grande fã das tiras de aventura, sempre salientando, nos podcasts que faz ao lado de Gusman e de outros dois companheiros de site (Samir Naliato e Marcelo Naranjo) sua paixão pelas tiras do Tintim, criadas pelo francês Hergé, outro fruto da época, nas décadas de 30 e 40. O espírito aventureiro de um jornalista francês prende a criança em aventuras que vão da ficção científica à exploração arqueológica, com o traço limpo e fluído. É possível ver também, em algumas situações, um certo racismo do próprio autor para com países africanos, cujo retrato, à época aceito, era totalmente estereotipado. Mesmo assim, a tira foi muito importante para a criação de milhões de leitores pelo mundo, desde Steven Spielberg, diretor do filme da personagem e fã declarado há anos, até o próprio Sérgio, que diz:  “As tiras criam o hábito da leitura e abrem uma perspectiva diferente par aos leitores”. “Além disso, ter um ídolo positivo desde cedo tem um grande impacto na formação do jovem: Tintim me abriu portas para outras culturas, viagens, outros países, história, etc; sem contar o puro prazer daquela aventura fantástica e cheia de humor”.  Segundo ele, essa influência da tira de aventura não acontecia somente com as tiras europeias, como também nos Estados Unidos, onde os autores da década de 60 que trabalhavam para a Marvel – Jack Kirby, Stan Lee, John Romita Sr. John Buscema, Steve Ditko – cresceram lendo as tiras de aventura desenhadas por Hal Foster (Tarzan e Príncipe Valente); Milton Caniff (Terry e os Piratas), impactando em trabalhos que, bem mais à frente, se tornariam peças do mais lucrativo final de semana de estreia na história dos cinemas.[1]

Perguntei então se, no Brasil, não falta uma tira de aventura que traga mais para perto o público devoto a esse tipo de história, ou mesmo a criança. Ele nega que isso seja um problema brasileiro, já que essas tiras estão desaparecendo em todo o mundo, levando o argumento para outro aspecto: “Em todos os grandes mercados de HQs (Estados Unidos, Japão e a Europa francófona) existem personagens de todos os gêneros e para todas as idades. Nos mercados de sucesso a pessoa cresce e migra de personagens, depois começa a descobrir os autores, os gêneros e continua lendo”. Se isso é assim, a razão de o Brasil estar em pé diferente é o caminho que o leitor percorre, existe um buraco nele, uma quebra na linha temporal do receptor. “Quando você é criança não está atrás do autor, mas do personagem.  Lê Disney, Turma da Mônica, Asterix, etc; e aí começam os buracos”, diz, argumentando que a partir desse ponto muita gente migrava para os comics de Super-Heróis, as revistas do Tex ou as edições de Conan. Mais tarde, uma geração adiante teve a opção dos mangás para inteirar essa conta. “Hoje o mercado continua com buracos porque continua esquecendo os personagens e saltou direto para o nicho autoral – que tem sua importância, mas gera menos leitor de quadrinhos. Quem já é leitor tem um interesse muito maior pelo material independente, mais autoral.”

É a base larga da pirâmide, segundo ele, que segura a estrutura para que mais experimentação possa surgir, mais assuntos possam ser abordados.

Uma formação de leitores é fundamental para que as tiras tenham a força necessária em crítica e impacto dentro da sociedade, evoluindo com ela e não existindo como uma relíquia de outrora; caso isso aconteça, é a morte do formato. Vale lembrar também que, no Brasil, até 2015, 42,2% dos domicílios ainda não possuíam acesso à internet por computador ou celular, além do índice de analfabetismo: 11,8 milhões de analfabetos, segundo o IBGE. Mais do que isso: quadrinhos são uma mídia que, para consumir, custa caro. Apesar de as revistas em banca serem relativamente acessíveis, comprar um jornal ou uma coletânea de tiras pode não ser viável e, em alguns casos, nem atraente para um leitor infantil ou infantojuvenil. Trabalhos de divulgação como os dos canais Papo Zine, de Carlos Neto, que divulga e apresenta para um grande público os quadrinistas brasileiros, e Black Pipe Entretenimento, do Load, que trabalha os quadrinhos misturado com hip hop e lifestyle, fazendo um excelente trabalho em todos os aspectos da cultura pop. Em um dos trabalhos mais recentes levou crianças de Cidade Tiradentes, bairro periférico do extremo leste paulista, para assistir ao filme Pantera Negra, da Marvel Studios, em uma sessão. O projeto foi financiado através do site Vakinha, uma plataforma de aporte coletivo, e alcançou 197% da meta, arrecadando R$7.080 reais.

É importante, em um ano de eleições, voltar o olhar para aspectos da nossa realidade que trazem outros ângulos à perspectiva rotineira que pode ser um tanto egoísta, antolhada. Páginas como Mãe Solo de Thaiz Leão, que faz um trabalho de humanização do ato da maternidade, “desromantizando a jornada” como diz a própria capa da página do facebook, com quase 80 mil curtidas, podem fazer você pensar mais profundamente nas propostas e aspectos de um candidato que não vê esse lado da moeda; páginas como Um sábado qualquer de Carlos Ruas, com mais de 2 milhões de curtidas te alertam para as incoerências da religião repressiva, independentemente de seu credo, e podem levar ao raciocínio de que uma proposta político-religiosa talvez não seja a melhor forma de reger o País.

Para Sergio, que está fora do Brasil há 12 anos, as opções que retratam a realidade brasileira e que ele mais acompanha tem nome: “Linha do Trem, do Raphael Salimena, e Malvados, do André Dahmer”. Apesar de esses serem suas visitas mais regulares, não são as únicas. “Odyr Bernardi, por exemplo, não faz tiras regularmente, mas quando faz tem coisas muito boas.”

“Acho que o retrato mais fiel” confessa “é o do brasileiro, do seu estado mental e espiritual, do que da situação política do país em específico, embora isso seja, também, representado em larga escala”. Seguindo a frase dele, existem retratos para todo tipo de mente e espírito, seja a mais caótica, quieta, de direita ou esquerda, as tiras pegarão na mão de sua preferência e vão caminhar com você. E caso você ache que elas não incomodam, que tudo aqui dito foi um exagero, lembre-se que existia, da década de 60 até a 90, o jornal Pasquim, que abrigou nomes como Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, artigos de Chico Buarque, entrevistas com Leila Diniz e as tiras de Henfil; em março de 70 o jornal foi alvo de uma bomba, que só não explodiu por erro dos terroristas. A bomba pesava 5 quilos.

[1] Os autores citados fizeram parte da criação ou trabalharam com personagens presentes no filme Vingadores: Guerra Infiníta. Produzido pela Marvel Studios e distribuído pela Disney, com direção dos Irmãos Russo, o filme teve a maior bilheteria de estréia da história de um filme, arrecadando 258 milhões de dólares só nos Estados Unidos.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *