PIPE OFF : Da Boca pra Fora 1#: Moby Dick – Chabouté.

Antes de começar esse texto, uma breve introdução. Da Boca pra Fora é como eu vou chamar qualquer coisa parecido com review de filme, gibi, musica, ou seja lá o que eu queira escrever que não seja sobre Wrestling. Como eu não sou critico nem jornalista, acho meio chato usar o nome Crítica ou coisa parecida. Bom, agora que tudo está explicado, vamos ao texto.


 

“Todos temos nossa Moby Dick”.

Não sei ao certo se esta frase está no livro e, pelo que me recordo, não está no quadrinho. Esta frase está escrita em um autografo dado por Daniel Lopez, editor da HQ e um terço do Pipoca e Nanquim, que trouxe esta obra ao Brasil. Este pensamento permeou minha cabeça durante todo o caminho de volta pra casa no dia em que comprei o gibi, assim como durante toda a leitura.

Moby Dick é uma das obras literárias seminais da humanidade, um clássico que traz o peso de uma baleia no nome, figurativo e literalmente. É de se esperar que adaptá-la a algo gráfico não seja fácil; muitos tentaram: Will Eisner e Bill Sienkiewicz são só dois nomes nessa lista. Tais adaptações só vi de relance e, apesar da arte dos dois últimos ser indiscutivelmente fenomenal, eu duvido muito (e aposto uma perna de marfim) que ambos tenham chegado perto de arpoar o nível de excelência, adaptando está obra de Herman Melville, quanto o francês Christophe Chabouté.

A obra foi dividida por ele originalmente em dois livros, publicados pela Vent’s d’Ouest em 2013 e 2014. Em terras brasileiras recebemos a obra em um encadernado completo de 256 páginas. Nelas veremos a história de Ishmael, um jovem que, ao sentir o chamado das águas, aborda um baleeiro de nome Pequod, comandado pelo velho Ahab, que traz em seu coração um único objetivo: Matar a cachalote alva, Moby Dick.

Desde a primeira gaivota a invadir os quadros PB de Chabouté já é possível sentir um clima de silencio e atenção que permeia gibi. Apesar da obra base ser um calhamaço em prosa, o artista opta por economizar nas palavras em troca de uma narrativa que, sinceramente, não pode ser chamada de estonteante, de linda, de primorosa. A narrativa do Francês é uma sacanagem. A história flui de quadro a quadro sem precisar de recordatórios, usando somente a quebra de um capítulo ao outro para colocar inserções certeiras de texto. No mais é só dialogo e um desenho inebriante.

Moby Dick

Os personagens, nomeados ou não, tem suas características físicas únicas, o que forma uma ligação automáticas com os indivíduos que formam a tripulação e também todos os outros que aparecem aqui e ali. Desde o polinésio Queequeg com suas pinturas faciais, até Starbuck e seu desespero, o próprio Ishmael com suas expressões de medo que, às vezes, chegam a estar em terceiro ou quarto plano e ainda assim ser reconhecível, todos possuem um rosto e, portanto, uma personalidade. Essa expressividade dada aos personagens é mantida com coerência em todas as aparições e, dado a expressividade do traço, muito pode ser dito no silencio dos quadros.

É claro, capitão Ahab tem tudo isso e mais. A melhor maneira de descrever como este personagem está incrível é a seguinte: Imagine uma peça teatral; atores e atrizes ótimos, todos no tempo certo, entonação perfeita, mas, entre eles, um Al Pacino no auge (ou qualquer equivalente de ator genial que se destaca entre os grandes). Assim é o incansável capitão do Pequod, assim é a própria Moby Dick! Um monstro incomensurável que move as velas deste velho.

Com esses personagens é construída uma história que pode ser interpretada de várias maneiras, que pode ser lida, relida e reimaginada usando inúmeros pontos de vista. O meu foi esse: Todos temos nossa Moby Dick.

Esta obra é permeada de simbolismo religioso, majoritariamente com relação ao cristianismo. Ismael e Acabe, o primogênito renegado de Abraão e o rei idolatras que desposou Jezabel; a baleia de Jonas, o barco de nome Raquel. Todos esses buscavam algo que talvez não fosse possível alcançar, algo grande demais que tomou suas vidas, seja de forma literal ou não.

A baleia gigantesca é isso, é aquilo que pode ser demais pro seu navio carregar, demais pros braços dos seus homens ou pros seus. E mesmo assim você continua, porque é preciso. Você larga tudo, até a própria lógica, e se agarra no que for preciso pra alcançar o coração da baleia com o arpão. As bênçãos de Deus e os rituais que unem vontade de capitão e nau, a natureza em fúria em contraste com o mar revolto, a imensidão do oceano quase tão desconhecido como o espaço, o que separa Ahab de sua baleia?

Esta é uma obra sobre as coisas inomináveis que buscamos na vida, coisas que talvez não seja possível alcançar. Eu já posso adiantar que uma coisa foi encontrada aqui: Não sei o que Chabouté buscava quando começou está obra, mas o que ele encontrou no final não foi nada menos que excelência.

Moby Dick

 

Epilogo

No dia 2 de setembro de 2017 ocorreu um evento de lançamento de Moby Dick na Quanta Academia de Artes, aonde estariam presentes, além do supracitado Daniel Lopez, Alexandre Callari e Bruno Zago. Eu fui. Era um sábado de certo sol, mas quando eu cheguei no metro já escurecia. Fiz o mesmo caminho que fiz durante um ano, período em que estudei desenho lá, cheguei ao mesmo ambiente e parecia não ter se passado nem um dia desde que conclui o curso. A escola ainda é o mesmo lugar cheio de apaixonados por quadrinhos, pulsando ideias e criatividade por suas paredes e prateleiras. Eis que chegam os três editores do Pipoca e Nanquim, site/canal do youtube que, neste ano de 2017, se tornou editora.

Sentado no fundo da sala eu ouvi o bate-papo que rolou pra falar sobre o novo lançamento, o processo de edição e os planos pro futuro. Depois disso, já no térreo (a “palestra” era no terceiro andar) eu finalmente pude comprar o gibi sobre o qual eu ouvi falar na última uma hora + alguns vídeos que eles lançaram sobre o mesmo. É engraçado, esse contato com eles me fez ter mais vontade de ler.

Além da edição estar impecável, com um papel de qualidade, uma capa sensacional e um letreiramento feito pelo excelente Arion Wu, ouvir todo o trabalho que deu e, mais tarde, poder parar no Stand e simplesmente conversar um pouco com pessoas que fazem parte do meu dia-a-dia, me fez ter um carinho especial por esse quadrinho.

Agora a editora já lançou, além de seus dois primeiros gibis (Espadas e Bruxas e Canon), Beasts of Burden (que já comprei) e outras duas obras já estão em pré-venda na amazon.  Com meu gibi ainda sem autografo debaixo do braço eu conversei cerca de uma hora ali, dando risada sobre uma forma de arte inigualável que todo mundo ali ama e vendo que o trabalho editorial é um mar revolto por raios.

De fato, todos nós temos nossa Moby Dick e, mais do que nunca, agora o Brasil tem a Moby Dick de Chabouté.

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