Cair pra cima: ROH 15th Anniversary – Christopher Daniels vs Adam Cole

Luta livre não tem nenhum sentido prático a não ser o entretenimento. Não tem a pretensão de fazer pensar em algo, não tem a soberba de querer ser mais do que é, mas também nunca finge ser menor. Sendo simples como é, a luta livre e meu lutador favorito acabaram me fazendo pensar sobre a vida num geral.

Christopher Daniels luta há 24 anos, mais tempo do que eu tenho de existência e, dependendo da sorte, mais do que jamais terei.

A primeira vez que eu vi esse homem careca (na época ele já era careca) foi em uma companhia que eu não costumava acompanhar. Ver Daniels e a TNA eram coisas fora da rotina para mim, era uma outra visão de Wrestling, era… outra coisa! E eu não gostava dessa mudança, eu gostava do Raw e do Smackdown. Meu negócio era o Undertaker! Mas o Undertaker com o tempo foi se tornando outra coisa e o Daniels virou minha rotina; enquanto o coveiro passava a me incomodar com a velhice que lhe incomodava, o anjo caído passou a envelhecer e me agradar cada vez mais.

Uma luta que me marcou muito nesse periodo, uma das primeiras que eu vi quando parei de acompanhar WWE exclusivamente, foi AJ Styles vs Christopher Daniels vs Samoa Joe pelo TNA World Title, a rematch do Clássico de 2005 que é muito comentado, ou pelo menos era na época. Também foi a luta que me incentivou a escrever sobre o Sr. Covell pela primeira vez, nos tempos difusos do Orkut em um quadro chamado “WWE for History”, porque para mim Wrestling ainda era WWE.

E é nesse próprio “Wrestling” que hoje dois terços dessa fração prosperam e crescem para o mundo, mesmo já sendo grandes para muita gente! Enquanto isso Daniels foi ficando “para trás” junto com seu amigo Frank Kazarian. Deixaram a TNA, se firmaram na ROH. O mundo do Wrestling foi evoluindo e minha percepção de Luta Livre se tornou uma coisa mais ampla, mais abrangente a outros gostos e outras propostas. Entretanto, mesmo com a visão mudando, uma coisa nunca mudou para mim: A importância de ser Campeão Mundial.

Claro, “Campeão Mundial” é só uma expressão que usamos para definir o campeão principal de uma federação; usualmente o Título é de campeão nacional, campeão mundial ou campeão de empresa “X”. Desculpem o didatismo idiota, talvez esteja explicando a mim mesmo.

Prosseguindo. Christopher Daniels já foi campeão em inúmeras federações, inclusive o World Champion de várias, porém ele nunca foi o cara. Foi um return que reforçou a Fourtune na sua feud excelente com a Immortal, é a metade da Addiction (anteriormente Bad Influence, amor eterno), foi TV Champion, Campeão de Duplas, teve sua Five Star match (a supracitada no Unbreakable 05); ele tem filhos, tem uma esposa, provavelmente uma família, amigos e uma comida favorita e uma roupa confortável de usar no domingo à tarde, quando pode.

Ainda assim, ele nunca fora o cara de uma empresa grande, um Wrestler possível de nomear a cara da companhia. Até Sexta-Feira, 10 de março, o Fallen Angel era mais um Wrestler que poderia entrar para classe de lendas que nunca foram World Champions, nunca tiveram a chance de ser o cara. Em uma promo ele, com maestria, demonstra todo o sentimento por trás dessa espera, a carga que uma conquista dessa carrega.

Ela é esta que se segue:

 

 

 

Eternidade e esquecimento, sacrifícios pela indústria e a percepção que o tempo, ele não está passando, ele já passou. E então eu pensei e repensei. Ser um wrestler é ouvir o relógio da vida bater meia noite as dez da noite, mas viajar no tempo além do que muitos outros esportes te permitem e no espaço muito mais que outras técnicas te proporcionam. Esse texto não é sobre mim, não é sobre o Adam Cole e o quanto a ideia dele e do Bullet Club já terem me esgotado a paciência profundamente; não é também sobre a luta, que, apesar de não ter sido ruim, não foi muito boa. Ela cumpriu seu propósito, com um final emocionante entregou aquilo que prometeu, condizente com a feud na qual foi fundamentada.

Ver o Curry Man levantando passado e futuro nas mãos, agora, foi bonito. A jornada completou seu sentido e justificou seus vazios; eu, como fã, fiquei alegre que só o diabo.

Chris já está “velho”, 46 anos é uma idade avançada, ainda mais em um estilo de luta como o dele. Quanto mais progredimos vai ficando mais evidente o efeito disso, apesar de ele ainda lutar com precisão e claridade, num dos estilos mais limpos já vistos. Portanto, esse é o tema: Sobre idade, sobre o tempo. Perceber que talvez seja a última chance de fazer algo grandioso, algo que “importa” é dolorido, porem precioso e inconscientemente diário. Talvez, enquanto seus amigos seguem caminhos diferentes e grandiosos, você se veja ali no mesmo lugar onde estava, sendo sempre o meio de um caminho para outros, mas nunca um ápice. E está bom assim, não há nada errado.

E tem algo errado. Tinha.

AJ Styles é ex-campeão da WWE, Samoa Joe é um candidato ao Main Event no futuro breve. Ambos já foram campeões mundiais há muito tempo atrás,  Joe da ROH inclusive, e para eles essa se faz uma conquista longe no retrovisor, decerto alguns degraus abaixo de uma escada inacabada. No ROH 15th Anniversary, Christopher Daniels chegou ao topo de sua escada, uma escada particular a qual todos construímos individualmente, com nossos próprios degraus e aspirações pessoais. Vai do que lhe é necessário.

Para ele era necessário estar no topo do mundo, do mundo DELE. Ele conseguiu, esse anjo caído despencou, mas despencou para cima.

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