Semanalfabeto 10# – Okada vs Omega: Uma história em quatro atos (ou mais)

Ou a edição em que vou falar para caralho.

Bem-vindos a mais um Semanalfabeto.

Começou no main event do Wrestle Kingdom 11, dez horas da manhã horário de Brasília, fim de mais uma temporada na NJPW. Tal temporada marcou a ascensão de Kenny Omega como líder do Bullet Club, com um reinado como IWGP Intercontinental Title e sua vitória no G1 Climax; ali no meio também houve a coroação de Kazuchika Okada como campeão pesos pesados pela quarta vez, capitaneando cada vitória com seu infalível Rainmaker. Tudo isso nos leva ao evento principal da empresa, um Main Event de WK em que ambos foram até o limite por 46 minutos, levantando, entre kickouts e mesas quebradas, vozes através do mundo, transformando a terra, por alguns instantes, em um gigante Tokyo Dome.

Era a New Japan pisando forte no chão, levantando poeira, duas pistolas na mão e um olhar ameaçador direcionado a seus oponentes no faroeste das empresas PW. Foi o primeiro ato que, em si só, já contava uma história inteira, um tipo de luta em que ninguém sai perdendo. A partir disso todo mundo passou a olhar mais atentamente para os dois, aguardando o que viria em seguida. Era lógica uma revanche, afinal, apesar dos mais de quarenta minutos, o gosto que ficou era o de necessidade. Aquela história tinha que continuar, seria injusto que não a continuassem. Depois do primeiro fim o que viria em seguida seria passo mais forte ainda, com muito mais poeira.

Dominion, 11 de Junho de 2017. Kazuchika Okada enfrenta Kenny Omega novamente, visando a sequência de seu reinado. A luta dessa vez nos leva a novos extremos. Se na primeira Omega mostrou que conseguia resistir a uma enormidade de Rainmakers enquanto seu oponente, para o desespero do canadense e qualquer um que estivesse torcendo para este, revertia tudo com seu belíssimo dropkick, na segunda tivemos um teste de tempo, uma luta onde nenhum dos dois se permitiu perder. Não perderam, resistiram a cada ofensiva, finishers, dive, aos socos, chutes, joelhadas; conseguiram sobreviver aos sons e aos silencio de um Osaka Jo Hall com quase 12 mil pessoas. A luta acabou em empate devido ao limite de 60 minutos. Okada sobreviveu a Omega, ou seria o contrário? Para o campeão foi a sequência de um reinado que se provaria longevo. Para o desafiante… podia ser a quebra de um tabu ou a morte da esperança, talvez os dois. A semente da dúvida foi plantada e ali ficava claro que a porta estava aberta para qualquer coisa que os bookers conseguissem pensar. Foi o final de uma segunda história, agora mais complexa, exigindo mais comprometimento e espera. A rematch que poderia responder veio só para questionar mais ainda e enquanto o ouro da casa ainda estava com o homem que faz chover dinheiro, a pressão agora estava do lado de Kenny Omega, que já havia falhado duas vezes contra o principal nome da empresa em 2017.

É interessante ver o que uma continuação faz com a internet, a polêmica envolvendo a nota 6 para a luta no Wrestle Kingdom vira um grande ponto de interrogação pintado a moda dos palhaços quando um quarto de estrela é adicionado as seis anteriores para classificar a segunda luta das quatro que existem. Para quem não sabe, o homem por trás das estrelas é o Sr. Dave Meltzer, sobre o qual é possível ler comentários tanto de fãs casuais como de gente da indústria, para qualquer lado da balança. A opinião do jornalista, uma verdadeira autoridade no assunto, ainda que possua seus detratores (e não são poucos), colocou mais lenha em um incendia que sempre está lá quando uma luta fora do eixo americano é massivamente elogiada, criando o famigerado buzz (o buchicho, o barulho, o papinho).

Isso nos leva até a final do Bloco B do G1 Climax 27, grande torneio da New Japan. Novamente eles se enfrentam, nesta ocasião sem título em jogo, além de uma outra condição diferente a dialogar diretamente com a luta anterior: o limite de tempo no G1 Climax é de meia-hora. E dentro desses trinta minutos estava a chance de Omega provar que poderia ultrapassar essa barreira de ouro e imortalidade na forma de um lutador ou iria finalmente sucumbir diante de seu maior adversário. Conseguiu. Era um Omega mais agressivo, uma velocidade maior nos ataques e cuidado redobrado contra o dropkick, contra golpe mais eficiente do Campeão. Conforme essas três grandes peças foram colocadas na frente do público, conexões eram traçadas e foi possível enxergar uma real evolução narrativa não só dentro desse contexto de trilogia, mas também conforme os lutadores iam participando de suas feuds em paralelo.

Não existiria motivo para gastar tantas palavras em uma tetralogia se ela, independente do seu gosto, não fosse tão importante como Omega vs Okada é. Não existe (pelo menos dentro de meu parco conhecimento) no wrestling atual, uma rivalidade com tamanho peso, carga narrativa, emocional (talvez com exceção de Gargano/Ciampa no NXT, mas usando um amplo alargamento de conceito) e tanto impacto quanto o que essa feud apresentou seu pouco mais de um ano. Tudo foi desenhado para que o caminho inevitável fosse um último encontro entre ambos. Mesmo quando o campeão poderia ter sido destronado, não o fizeram e os títulos e seguranças de Omega foram tirados dele para a volta de uma outra personagem em sua carreira, levando o lutador a outro nível, ao ponto de ter ultrapassado o conceito de Bullet Club, tornando-se maior que uma stable extremamente popular na última década, provavelmente a mais comentada. E ainda assim, se tirarmos os Golden Lovers, o Bullet Club, Nick e Matt, tirarmos a Chaos, as doze defesas de título, a gloria, as músicas, a empresa, a pirotecnia… se subtrair as variáveis, o que sobra ainda converge para uma única pergunta: quem é melhor? Talvez seja a história mais antiga da natureza, nem mesmo uma história, só um conceito.

Saindo da Kayfabe, para mim é realmente difícil conseguir decidir qual dos dois é superior dentro dessa arte, sendo evidente somente o fato que os dois, em simbiose, formam uma combinação digna de clássicos. Então temos Kazuchika Okada vs Kenny Omega IV. Temos uma 2 out of 3 falls. Temos uma luta sem limite de tempo.

Temos um clássico.

Assisti essa luta algumas vezes e ainda não consigo ter firmeza moral para falar dela. A primeira vez foi sozinho, enquanto o restante da família assistia o Flamengo jogar contra algum outro time o qual não conseguirei nomear (e nem puxar, através da memória, o resultado). Fiquei extasiado e, por favor, não tome por essa palavra nada a menos do que seu senso mais potente, não exagero quando digo tal coisa. Fiquei realmente em estado de graça assisitindo esse quarto encontro, plenamente feliz, em um dos poucos momentos nos últimos tempos em que o wrestling foi suficiente, bastando aquele universo como o meu, sem outros para completar, nem existindo o gosto amargo que uma possibilidade melhor executada deixa na boca quando não posta em prática (ou quando é, mas sua opinião diz o contrário). Deixei passar, comecei a escrever ainda naquela noite em que o frio começava a se impor com mais veemência, o que me impediu de terminar, já que a preguiça foi mais forte.

No outro dia assisti novamente (inclusive com a minha mãe, que gostou muito) e, da mesma forma, tive uma reação forte e de plena felicidade. É desnecessário falar que à segunda vista qualquer coisa salienta suas falhas, mas as vezes as pessoas precisam ler o desnecessário. Não será aqui (pelo menos não nessa linha), pois eu digo que, na minha opinião pessoal, é uma luta irretocável. Não vejo alternativas que fariam dessa luta algo melhor do que foi e espero que fique assim. Ver esse embate acontecer em um futuro, mesmo que as quatro lutas tenham sido tão espaçadas, deixaria a coisa um pouco repetitiva demais.. Uma nota 7 pode ser exagerada? Bastante. Que se foda o 7. Kenny Omega, o primeiro ocidental a ganhar um G1 Climax, bateu seu maior oponente dentro do ringue em uma luta de 64 minutos que vai construindo atos dentro de si, em uma história que já teve outros climaxes e outros atos nela mesma.

Temos pela frente o reinado de Kenny Omega e com relação a isso não tenho previsões. Com Kota Ibushi e os Young Bucks, a chamada Golden Elite se levanta como uma força poderosíssima dentro do Wrestling Mundial, algo que, mesmo em épocas de AJ Styles campeão IWGP ao lado destes mesmos irmãos, não tinha o mesmo escopo. O que se houve através do caos que é o mundo do Wrestling dentro e fora da internet, são vozes nomeando a New Japan Pro Wrestling como uma força equivalente a WWE dentro do status quo global, uma competição a altura depois de anos em que  uma TNA que se apresentou ao desafio, mas não conseguiu carregar o fardo. Outras pessoas com mais experiência e mais estudo histórico poderão lhe dizer, leitor paciente que chegou até aqui depois de tanta coisa, a jornada NJPW até este ponto, seus grandes nomes, os clássicos, os aces, etc (inclusive procurem os vídeos do 4 Tomatoes Cans sobre o Antonio Inoki e sobre as lutas citadas acima.)

Da minha parte, digo:

Sinto que houve uma abertura por parte do público para com a federação, com a expansão do cenário independente e a transição de nomes que lutam tanto no Japão quanto nos Estados Unidos, foi possibilitado um processo de adaptação com o estilo japonês de conduzir uma luta, seu ritmo mais moroso, mais modular. Da mesma forma a própria New Japan se adaptou ao público americano, mas sem perder seu estilo. Vale lembrar que eu não quero aqui advogar que a empresa é melhor que X ou Y, seja em nível nacional ou internacional, entretanto é evidente que, se existe uma empresa com alcance e potencial para eventualmente bater de frente com o grande monstro da indústria, a que chega mais perto é NJPW.

Eu não sei se Okada vs Omega é o novo Flair vs Steamboat, nem se a Golden Elite pode vir a ser uma versão dos 4 Horsemen. As cartas não estão na mesa, o jogo de cartas já acabou, agora a estratégia e a plataforma é outra, deixou-se o Poker e virou Xadrez. E que se mova a primeira peça.

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