Da Boca para Fora 3# – EUDAIMONIA, O Quarto Vivente e Luciano Salles

Esse escrito não é uma reportagem como a da última edição. Também não sei se é possível chama-lo de resenha. É um texto, e, tal qual as obras sobre as quais falarei hoje, ainda não compreendi totalmente.

A verdade é que a primeira vez que eu abri um quadrinho de Luciano Salles eu não entendi é porra nenhuma.

Foi na Quanta [Academia de Artes]. Eu estudava desenho e sempre antes das aulas (quando não chegava atrasado) pegava alguma coisa para ler. Neste dia o escolhido foi Limiar Dark Matter. Como você pode ver no título, caro leitor, não vamos falar dessa HQ hoje, em primeiro lugar por conta de minha parca memória e em segundo lugar… bom, acredito que introdução deixou as impressões bem claras. O fato é que, mesmo sem entender nada, algo daquilo ficou, alguma coisa daquelas linhas e daquele treco preto que o personagem engoliu, aquelas imagens ficaram guardadas, um tipo de sensação e identidade que eu relembraria no futuro.

Ele chegou.

Dois anos se passaram até eu ler, na qualidade completa que a palavra exige, uma HQ do artista e ex-bancario. Foi Eudaimonia, financiado via Catarse, publicado de maneira independente e distribuído através da produtora de Luciano, a Memento 832; adivinhe o que aconteceu quando eu li a obra pela primeira vez?

 

EUDAIMONIA

É uma história sobre um homem vestido de onça que se alia a uma idosa usuária de drogas para invadir um cafofo e lobotomizar um sujeito com nome de eletrodoméstico.

EUDAIMONIA

É uma HQ sobre a morte da alma, uma segunda chance, a busca pela felicidade e o cumprimento das tarefas; uma perseguição ao objetivo, aquilo que te completa.

EUDAIMONIA

Um gibi que traz vários canudos (de plástico, mas não esquente com isso, são imaginários) que se enfiam nos crânios de Kubrick, Gaspar Noé, Spike Jonze, David Lynch, Katsuhiro Otomo, Moebius, bifurcando em uma intravenosa conectada ao braço que desenhava este gibi de 32 páginas em preto e branco. Tem hachuras, retículas e pessoas extremamente bem desenhadas que parecem estar sendo constantemente oprimidas ao mesmo tempo que oprimem seu mundos internos, seus próprios ossos existência.

EUDAIMONIA

Foi oficialmente minha primeira leitura do Salles, porque, francamente, nenhuma primeira “primeira” leitura dele pode ser considerada. Seria como considerar um soco na cara sua primeira aula de educação física; é mais um choque, um acordão. Ele te joga na água (quente ou fria) que é aquele mundo e fala “nade”, enquanto você está sem boia, não dá pé e tem dois blocos de concreto amarrados aos tornozelos. É angustiante a descida, mas também é inevitável.

Foi uma felicidade ver que a edição vinha com um autografo muito bonito do autor, este que saí mostrando pela casa, inclusive para o meu avô. Ele folheou a revista e adorou, mostrando aqui e ali algum desenho.

“Olha esse aqui” dizia ele enquanto estava deitado no sofá. Aposto que ele entendeu tudo de primeira.

Na mesma semana que recebi EUDAIMONIA em minha vida, Luciano estaria lançando-a em um evento na escola de desenho supracitada. Fui lá.

Naquela noite comprei O Quarto Vivente e, como sinopse, recebi o final da história da boca do próprio escritor, que apontou para mim e completou “isso ai é spoiler para você, inclusive”.

Se pararmos para pensar, já era ele mesmo que ia me contar tal acontecido, de uma forma ou de outra.

E já que o próprio Luciano não liga para spoilers, vou presumir que você também não.

O Quarto Vivente

É um gibi sobre uma garota que dá à luz a uma baleia.

Um mundo de muitas cores e emoções, de verbos em 3ª pessoa, de coisas que se espalham. Líquidos e palavras e sentimentos e fases da vida. É outra confusão completamente diferente de EUDAIMONIA. É um trabalho mais antigo, o que faz dele ao mesmo tempo mais novo pela inexperiência e mais velho pela idade. Um outro mundo, diferente do nosso, ainda que reconhecível; uma outra sociedade ao passo que é a mesma, problemas iguais. Entrando de cabeça ali é impossível saber para onde olhar, mas também dificilmente você irá fechar os olhos.

Foi bom pegar um dos primeiros trabalhos para ler logo após ter consumido o mais recente. A evolução ficou mais clara, tanto em diagramação, em pensar o produto e em escolhas estéticas, quanto no próprio traço, que apesar de já ser uma porrada (ou um chute, você que escolhe), foi ganhando mais e mais sustância com o tempo.

Ambos são gibis difíceis, muito mais sinestésicos do que cartesianos, então se você não gosta de não entender algo, é provável que torça o nariz.

E tudo bem.

Parece pouco saudável falar que se gosta ou não de algo simplesmente por não conseguir tirar uma conclusão sobre aquilo, tanto em ficção quanto na vida. O negócio com os gibis desse autor, pelo menos para mim, é que você entende tudo, se entende, pega as coisas e digere, mas no final não sabe disso. Da mesma forma que as vezes olha-se para um lado, para o outro e a vida simplesmente não faz sentido, ainda que seja totalmente coerente.

É bom, é ruim, é aquilo que está na página e o que está entre a página. Também é o que está em sua volta, por trás, nos livros, nos filmes, é um apanhado de coisas. Me desculpe por falar tantas vezes sobre o que as coisas SÃO e NÃO SÃO, mas nessa confusão toda e nesse turbilhão que existe nas obras do autor residente de Araraquara fica realmente complicado não se perder.

Sobre o autor? Na ocasião em que o conheci, além de ter sido muito atencioso, mostrou ser alguém de pensamentos muito digeridos e concretos, seja no que tange arte ou até mesmo seu modo de viver ou de seguir sua carreira. Luciano Salles é sóbrio, extremamente sóbrio, ele sabe o que está fazendo, mesmo que você não saiba o que está lendo.

“ Esse aqui é meu material de trabalho “ disse ele me mostrando o estojo. Talvez não tenham sido exatamente essas palavras, mas faz realmente um certo tempo (seis meses entre o evento narrado e a conclusão deste texto.)O

Estou sem saber como arrematar tudo… então vou pelo caminho mais fácil: Durante a confecção desse texto, EUDAIMONIA foi indicada ao troféu HQMIX nas categorias “publicação independente de autor” e “publicação independente edição única”, além do desenhista, que concorre ao prêmio “desenhista nacional”. A entrega do troféu acontece no dia 16/09, as 17h no SESC Pompeia.

Salles também faz as ilustrações semanais da coluna de Daniel Furlan (grande craque) dentro da Folha de S. Paulo.

Procure as obras, ache-as e, depois disso, procure mais um pouco ali dentro.

Obedeças para serdes feliz.

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Da Boca para Fora 2# – Não há tira (BLAM!) sem contexto

Como as tiras de quadrinhos se relacionam com a situação política e social do Brasil

 

Arte não acontece no vácuo. O ato de sentar em uma cadeira frente à prancheta ou ao computador de Photoshop aberto não ocorre isolado do mundo; desse ambiente surgem, há mais de um século, as tiras em quadrinhos. No Brasil, desde Sisson, que retratatou os costumes amorosos do Rio de Janeiro de 1855, no primeiro quadrinho brasileiro, até Thaïs Gualberto com sua Olga, a Sexóloga, em que transmite a vida de uma mulher em 2018, as tiras sempre foram um fruto de sua época, da política do país e de sua situação social.

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Semanalfabeto 7# – Review – André the Giant: Life and Legend

Não é preciso muita coisa para contar uma grande história, a não ser uma grande história em si. Sem isso você não tem nada, independente dos seus personagens, da situação maluca ou da técnica usada para transmitir aquilo. E não existe história maior que a vida real, talvez a não ser no Pro-Wrestling. Nesse âmbito se passa André the Giant: Life and Legend, escrita e desenhada por Box Brown. Sinceramente eu não conheço muito o trabalho do autor, mas já no prefácio fica visível seu amor pela arte que mistura esporte e ficção. Neste espaço ele explica como começou a gostar de Luta-Livre e, consequentemente, conheceu o gigante. “O conceito de ‘verdade’ que se tem no Wrestling profissional e certamente elástico e se conecta com a ideia do wrestler como um produto” escreve Brown em um dos parágrafos.

Como é ser vendido como um produto quando as características que lhe tornam vendável também são as características que vão te matar um dia?

Usando essa premissa, Brown conta a história de André Roussimoff, nascido em Grenoble, França, em 19 de maio de 1946. Para nós Roussimoff é André The Giant, a oitava maravilha do mundo, um gigante que pisou nos ringues é protagonizou um dos momentos mais icônicos do Wrestling nos Estados Unidos, para o bem ou para o mal. Neste gibi Brown aborda tanto carreira como vida pessoal do lutador, a convivência com a doença que lhe dava todo esse tamanho e que lhe trazia tanta dor e como isso afetava suas relações com os outros. A Acromegalia, doença supracitada, é explicada em duas páginas inteiras com pequenas intervenções textuais. De um jeito simples é nos apresentado o todo: O corpo de Roussimoff basicamente ia crescer até não conseguir mais, os órgãos não iam acompanhar e ele iria envelhecer mais rápido que o normal. Isso é mostrado com desenhos simples e precisos, característica do gibi inteiro.

Não espere de Brown um traço rebuscado e muito detalhamento. Sua anatomia é bem simplificada e ele faz um bom uso das formas e dos volumes. Os ângulos de câmera são, em sua maioria, muito simples, sempre detonando a enormidade que era André. A parte positiva é que, devido a essa simplicidade constante, ele consegue impactar nos momentos certo; a cena do body slam de Hulk Hogan em André The Giant nunca tinha me impressionado até hoje. Nesse gibi, com esse contexto e essa narração ele reassume um poder que, sinceramente, eu nunca achei que tivesse.

Esse tipo de desenho também contribui para um clima cotidiano nas situações, principalmente em um tipo de negócio em que tudo é tão escalafobético, tão gigante. As escolhas narrativas são importantes para “blocar” a história. Brown usa cartazes, revistas, mapas de viagem estilo Spielberg e a clássica legenda para mostrar local e data. O acabamento de seu traço é basicamente nanquim, sem cores e somente um tom de sombra devido ao uso da reticula cinza escura. Se por um lado a arte é boa, por outro ela torna a história um pouco desinteressante as vezes, passando rápido demais em pontos nos quais poderia se deter um pouco mais, como as relações de André com outros Wrestlers e algumas brigas. Mesmo assim essa escolha é consciente do autor, levando em conta que existe uma vida inteira para contar ali e a história tem de seguir em frente.

Como um biógrafo o desenhista não se segura e mostra aspectos importantes da personalidade de André, o consumo abusivo de álcool, os acessos de raiva, sua descontração, suas falhas, os xingamentos racistas e sua falta de contato com sua filha e a mãe dela; é possível ver também através das páginas a doçura de alguém que teve de conviver com uma existência que o tratava feito aberração, sempre com dor e com a sombra de uma morte precoce correndo atrás de alguém que vive em um ambiente de atuação física constante. Se faltam tons de cinza na arte, sobram na temática, sendo inexistente um julgamento moral por parte do autor quanto as ações de André, algo que fica a cargo do leitor.

Outro aspecto bom do gibi é o trabalho de introduzir a luta-livre como um modelo de negócios e suas características. Além da explicação de alguns jargões existirem dentro da própria história, no final da obra existe um pequeno glossário de termos, explicando coisas como babyface, heel, squash e over, conceitos que, para quem acompanha Wrestling, são claríssimos, mas podem ser confusos para alguém que não está habituado com esse universo. Dentro disso temos o trabalho de André The Giant como um lutador, seu começo na França até evoluir para uma atração mundial, o excesso de exposição (e como isso pode comprometer um lutador) e a figura de Vince McMahon Sr. como alguém que transformou um ser humano em lenda. Esse ponto é um exemplo perfeito de como funcionam as coisas no Wrestling: todas as ações do lutador devem ser pensadas para contar uma história, seja seu excesso de movimentos ou a falta deles. Essa é a mágica retratada nos ringues e que é transposta pagina a pagina nessa obra.

Life and Legend é um trabalho muito bem feito, passando por várias épocas da indústria enquanto entra fundo dentro da vida de um homem que precisa lidar com seus demônios e os demônios a sua volta, estejam eles em forma de problemas ou de pessoas; em alguns momentos ele mesmo pode ter sido um demônio dentro da vida alheia, ou um anjo, ou somente um gigante que transpôs no ringue um sonho. Box Brown tem um trabalho contundente que pode agradar tanto o fã que já conhece os lutadores como aquele que nunca viu uma luta na vida e se interessou pelo gibi mesmo assim.

Infelizmente a obra ainda não foi publicada no Brasil, mas é possível encontra-la para importação por um preço razoável.

Esse foi o Semanalfabeto dessa semana, atrasado novamente, mas eu sei que você me perdoa, querido leitor. Fique firme, até semana que vem, se possível comente ai embaixo o que você quer ler ou o que você não quer ler. Me dê uma luz, talvez eu te de um texto de nova. Seja gentil, um abraço.

 

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arquivo

Semanalfabeto 2# – Dias de um arquivo esquecido.

1H40 AM

Está frio e existem duas possibilidades: ou eu estou com catapora ou eu tenho uma alergia admirável a oxigênio, porque não existe pernilongo suficiente na terra para fazer um ataque soviético desses.

É a punição dos piratas.

Bem-Vindos, essa edição é um oferecimento XWT: Tudo o que você conseguir baixar, principalmente se for Free-Leech. É incrível a quantidade de merdas que a gente guarda pensando que vai assistir um dia e acaba esquecendo que existe. Pelo menos até criar um quadro teoricamente semanal. Vamos aos arquivos empoeirados! (mais…)

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PIPE OFF : Da Boca pra Fora 1#: Moby Dick – Chabouté.

Antes de começar esse texto, uma breve introdução. Da Boca pra Fora é como eu vou chamar qualquer coisa parecido com review de filme, gibi, musica, ou seja lá o que eu queira escrever que não seja sobre Wrestling. Como eu não sou critico nem jornalista, acho meio chato usar o nome Crítica ou coisa parecida. Bom, agora que tudo está explicado, vamos ao texto.


 

“Todos temos nossa Moby Dick”.

Não sei ao certo se esta frase está no livro e, pelo que me recordo, não está no quadrinho. Esta frase está escrita em um autografo dado por Daniel Lopez, editor da HQ e um terço do Pipoca e Nanquim, que trouxe esta obra ao Brasil. Este pensamento permeou minha cabeça durante todo o caminho de volta pra casa no dia em que comprei o gibi, assim como durante toda a leitura.

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