Wrestlemania 32- Uma Noite.

 

Uma das últimas vezes que escrevi para cá estava na mesma posição que agora: sentado na cadeira com um monte de ideias na cabeça, um turbilhão de sentimentos e os fones no ouvido. Mesma posição, situação diferente.

Hoje não é a aposentadoria de um grande Wrestler que me motiva (mesmo que outra já tenha acontecido nesse mesmo fim de semana) mas sim um evento de 7 horas de duração que, horas parece ter 30 minutos, horas parece ter 5 anos. Para todo fã de Wrestling a Wrestlemania significa algo, mesmo que pouco; é provavelmente o principal nome dentre os eventos de Wrestling mundial, mesmo que, para os puristas, o Wrestling faça agora pouco parte do seu cartel dando lugar para o (muitas vezes odiado) entretenimento. Hoje eu vi um dos maiores fan-services da história da WWE, me diverti como não me divertia há tempos na companhia dos outros animais que rodeiam esse ambiente e, ao final, simplesmente não sei o que falar.

Vou apelar para o clichê e começar pelo começo, ou pelo começo antes do começo

O pré show é uma aposta recorrente da WWE para despejar Matches que ela não considera muito importante e também para fazer algum anuncio ou build up que ache necessário para o evento. No caso desta Wrestlemania tivemos o US Title sendo defendido num embate clássico entre David e Golias, onde Kalisto saiu vitorioso em cima do gigante Ryback; venceu assim como manda a história. Também tivemos uma luta de divas feita para recompensar o trabalho de uma porrada de Divas e de principalmente duas gêmeas que durante alguns anos foram uma das únicas peças do Card feminino da empresa. Felizmente isso mudou, sua representatividade mudou e a de sua divisão também. Nessas duas horas de gestação pré Wrestlemania tivemos o novo WWE WOMEN’S Title revelado; ele tem a forma do Title principal da empresa, com as cores diferentes, mas o mesmo peso. Lita carregou essa representatividade e esse peso com habilidade por muitos anos, ninguém melhor do que ela para nos apresentar a essa nova fase das mulheres na WWE. Voltaremos a isso depois.

Entre idas e vindas tivemos Usos vs Dudleys, nada de importante, nada de empolgante e nada a declarar. Vamos ao evento.

Lita New Womens Title

Abrem-se finalmente os portões das possibilidades, começa oficialmente a Wrestlemania e começa com o caos instaurado. Six Man Ladder Match pelo Intercontinental Title, uma feud fortemente estabelecida e alguns outros Wrestlers ali para dar volume ao organismo daquela peleja. Pois um dos elementos considerados mais irrelevantes daquela maçaroca galgou parâmetros improváveis; venceu os estreantes, as estrelas em decadência, o mascarado e venceu a obviedade. Ao final da match Zack Ryder segurava o Intercontinental Title em suas mãos enquanto olhava para as mais de 100 mil pessoas (segundo a WWE, Meltzer e Alvarez discordam) de cima da escada que era só sua, dado o fato ter 5 outros Wrestlers aos seus pés. Quem eu quero enganar? Naquele momento Ryder tinha o mundo aos seus pés, e o mundo sorriu.

E entraram então os maiores do mundo para se enfrentarem mais uma vez, mas como sabemos, na Wrestlemania é sempre a primeira vez. Chris Jericho já esteve em várias, ganhou algumas, perdeu outras, sempre foi destaque no quesito Wrestling, carisma e total controle do público e de seu personagem; um dos verdadeiros deuses do Wrestling pisa novamente em seu panteão, desta vez para enfrentar um novo deus. The Phenomenal Aj Styles tem de fato sua primeira vez na WWE, sua popularidade junto à crowd é incrível, sua fama através do mundo é inquestionável e sua habilidade In Ring se equipara ao Wrestler anteriormente citado. Era um combate de gigantes logo na segunda luta; lutaram como gigantes, venceram e caíram como gigantes. Usaram o que podiam de seus arsenais, mostraram porque são os nomes que são e com o tempo que tiveram fizeram uma das melhores matches dessa Wrestlemania, senão a melhor. No final Jericho saiu vencedor, Styles sai ainda sendo a grande estrela que é e tem a sua frente, após perder para uma lenda, um futuro inegavelmente fenomenal. Ou assim eu espero.

 

210_WM32_04032016cm1963--7456eeba5b09a48cc29cbe331abd8a0b

 

Saem as lendas, entram os novatos. E só sendo realmente uma pessoa amarga para não gostar da New Day (desculpe se você não gosta, eu estava falando de outra pessoa).

O que esperar de três adultos saindo de uma caixa de cereal gigante vestidos à caráter “Dragon Ball Z” enquanto vem dançando para lutar no Showcase of Immortals? Espere surpresas! New Day foi a melhor aposta da WWE em anos; dando liberdade criativa para seus três membros eles se tornaram uma máquina de diversão e sua presença no ringue, no youtube ou seja lá onde for é garantia de diversão. Infelizmente o mesmo não pode se dizer na League of Nations, que são provavelmente a pior ideia da WWE em anos. Esses opostos se enfrentaram e apesar da New Day ser fantástica é um tanto quanto difícil engolir a LoN. Tivemos que engolir; vencendo a Tag Match saíram da batalha tão insignificantes como entraram, mas felizmente sua presença estava ali para outro grande momento da noite. Wade Barrett disse que não havia um Trio que pudesse bate-los e imediatamente o universo rebateu.

Eu não gosto do Shawn Michaels, acho que isso já é de conhecimento público, mas é inegável que sua presença foi empolgante e que a alcunha de Mr Wrestlemania lhe cai como uma luva. Mick Foley me trouxe arrepios na espinha, pois de fato é um dos meus wrestlers favoritos e ao barulho de vidros quebrados eu já estava eufórico como uma criança que comeu muito açúcar. “Stone Cold” Steve Austin, “Heartbreak Kid” Shawn Michaels e Cactus Jack; Stunner, Sweet Chin Music, Mr Socko. New Day dançou junto as lendas, fizeram Mick Foley rebolar no ringue e no final acabou tudo em cerveja e num belo Stunner em Xavier Woods. Naquele momento era tudo festa e parecia a noite perfeita. Era hora de a Besta surgir do mar e subir ao ringue.

Dois anos atrás Brock Lesnar quebrava o maior símbolo da Wrestlemania em um momento chocante. Enfrentou este ano um marco do Wrestling extremo, Jon Moxley ou, como o conhecemos agora, Dean Ambrose já fez de tudo no ringue; seu corpo já foi ao extremo, seu sangue espalhado por cadeiras e serras. Estava agora em sua zona de conforto no maior palco de todos e, após receber semana a semana o apoio de grandes lendas do Hardcore Wrestling, parecia que esta seria a sua noite e, mais do que tudo, seria uma noite sangrenta. Para nossa infelicidade Brock fez um trabalho limpo, levando Ambrose numa viagem sem volta à Suplex City e mantendo seu personagem verdadeiramente invencível, sempre anunciado pelo impecável Paul Heyman, sua fonte de força no cenário atual. Para mim foi a primeira decepção da noite; uma grande luta sem dúvida! Decepcionante ainda assim.

 

Ambrose Lesnar

 

Após a decepção, um presente para as lendas do passado, às lutadoras do presente e do futuro. Um trio que mudou os parâmetros da WWE para sempre. Voltamos a elas meus amigos, voltamos as WRESTLERS, que agora tem o nome que a muito merecem. Nem uma borboleta a mais, somente a coroação de um momento sublime, mais um nesta noite.

 

Becky Lynch, Charlotte e Sasha Banks. No NXT, juntas com a fantástica Bayley, começaram o que veio a ser conhecido como “Divas Revolution”, uma tardia valorização da WWE a sua divisão feminina que durante muitos anos foi objetificada e utilizada somente como gancho para alguma feud entre Wrestlers. Isso pode não ter acabado totalmente, mas finalmente MUDOU em letras garrafais. Mudaram o título, o booking e finalmente a posição da match no Card; uma luta tão importante quanto a Hell In a Cell, a No Holds Barred e sem sombra de dúvidas mais empolgante que o próprio Main Event; claramente tão importante quanto.

Desculpe, mas vou me estender aqui.

Becky entrou fumegante no ringue! Sua theme envolveu o estádio e seu carisma é indiscutível, sua atitude e habilidade in Ring são invejáveis, uma Wrestler com W maiúsculo. Sasha Banks entrou acompanhada de Snoop D O Double G, usando a calça inspirada na Attire de Eddie Guerrero, cobrindo a Arena de papel picado e de euforia; recebeu um pop fantástico e sem dúvida, independente do resultado, essa foi a sua noite. Charlotte entrou com o calibre de uma campeã e com a pose de uma Flair, usando o clássico roupão de seu pai e seguida por um show pirotécnico admirável. Tudo foi preparado para aquele momento, para aqueles minutos que se seguiriam e que, caso fossem bem usados, poderiam mudar o curso da empresa em definitivo. Elas não poderiam ter usado o tempo de melhor forma. Na minha humilde opinião uma luta quase impecável, um pequeno botch no começo e o restante foi de tirar o folego. As três tem uma química in Ring de fazer frente a grandes nomes como Hart e Owen, um storytelling perfeito e levaram a match com classe e energia. Voltando a salientar aqui, assisti a Wrestlemania com meus bons amigos que também fazem parte desse site e ao fim da luta estávamos os 5 felizes, impressionados e sem folego de tanto torcer e vibrar com tal luta. Charlotte saiu campeã da Wrestlemania, Sasha e Becky igualmente vitoriosas entraram para a história como participantes da primeira disputa do novo Womens Title no maior evento do ano. A nos resta somente aplaudir, rever e acompanhar o futuro dessas três que, se os deuses permitirem, será cada vez mais brilhante.

 

Sasha Becky Char

As estreantes emocionaram, cabia agora aos veteranos não decepcionar. Não decepcionaram, mas sim deixaram, novamente, sua marca, reiterando o porquê de terem a importância que tem.

 

Nesta noite, um homem voou.

 

Shane Mcmahon sempre foi o melhor da família, tendo realmente amor pela indústria, pelo esporte e pela empresa de seus ancestrais. Shane Mcmahon (como os amigos do WrestleBr bem falaram a uns dias atrás) não precisa fazer isso! É rico, certamente herdara a empresa quando seu pai vier a falecer, é um dos nomes mais queridos do wrestling e, acima de tudo, já tem 46 Anos. Undertaker também não precisa fazer mais nada pelo esporte. Agora com 24 Wrestlemania em sua lista, ele foi (e ainda é) uma das principais atrações do evento, marca registrada dentre os fãs e, lute bem ou lute mal, esteja velho ou jovem, discutivelmente a principal lenda dentro da História da WWE, pelo personagem e pelo profissionalismo. Muitos foram melhores que ele, muitos ainda serão, Undertaker nunca foi um Wrestler primoroso, longe disso! Mas poucos impactaram como o Sr. Mark Callway nos impactou.

 

Hell in A Cell, uma das estipulações mais legais já feitas na indústria. Mais dinâmica que uma Steel Cage match e muito mais violenta, esta estipulação já teve momentos históricos em seu cartel de lutas, muito dos quais, protagonizados por Undertaker em companhia de nomes de peso como os já citados Shawn Michael e Mick Foley. Devido a sua idade foi, mais uma vez, carregado na luta; por presente do destino, magistralmente carregado por Shane O’Mac que lutou com a intensidade de um menino e a garra de um ancião. Seus socos eram reais, suas quedas e machucados doíam na crowd e em quem mais assistia, lançou-se de um lado para o outro, na jaula e nas escadas. Fez o que podia e o que não podia e por fim lançou-se. Lançou-se num último salto de fé (tradução livre) para o indefinido e não achando inimigo em cima daquela mesa de comentaristas simplesmente caiu. Caiu nos braços de milhões de fãs que catatônicos olhavam sem saber se tinham visto o que viram, sem saber que aquele senhor saltou de 6 metros de altura diretamente no chão na frente de seus filhos, sua esposa, sua mãe e de todos os maravilhados naquele minuto interminável. Undertaker o finalizou com honra, saiu com honra e deixou Shane sozinho com as conquistas de sua derrota. O mundo novamente sorriu, mais largo e mais brilhante que nunca.

Shane Mcmahon

 

Depois disso não tenho muito a dizer. Baron Corbin levou a Battle Royal precocemente, The Rock fez um segmente que enterra uma boa Stable da WWE, quebra o recorde de luta mais rápida da historia do evento e serve somente para pavimentar um retorno surpresa de John Cena; retorno que poderia ter sido marcante na noite pós- Wrestlemania mas que frente a Undertaker, Sasha, Jericho, AJ, Shane, New Day, Charlotte e tudo o mais, apequenou-se a alguns momentos de tedio. Se Cena foi apequenado, nada se diz do Main Event.

 

Uma luta fraquíssima, chata e tristemente sem surpresas. A única surpresa foi um Spear aplicado em Stephanie Mcmahon (meh) e a, sempre fantástica, entrance de Triple H, que provavelmente só continua lutando pelas ideias de entrance que tem. A última hora foi sofrível, mas como tudo na vida, acabou.

 

Ao final a Wrestlemania teve um saldo positivíssimo e agora, um dia depois de sua realização eu ainda me encontro agraciado pelos louros de uma das grandes noites do Wrestling e do entretenimento, que se mesclaram de forma perfeita num alinhamento de astros que, pelas graças de Lou Thesz, se repetira mais vezes esse ano.

 

Ainda vai ter podcast disso, muita gente ainda vai falar disso e provavelmente vão ser mais sucintos e bem-sucedidos que eu. Mas pra mim fica a memória de uma noite divertidíssima onde a luta livre em todas as suas nuances me fez infantilmente feliz.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *