WRESTLING NOIR – Escrito em Tábuas de Ouro

O universo que você vai entrar agora, apesar de se passar em São Paulo, é totalmente fictício. Sua época passada não é tão passada assim, apesar do ano e os lugares que você irá frequentar nessa narrativa são parcial ou completamente inventados, assim como seus personagens. Eu vi isso uma vez em um livro do Dennis Lehane e resolvi copiar. Boa leitura. 

Arte da Capa: Luan Bonato

Dentro das sombras escuras e luzes vermelhas, ficava cada vez mais aparente que os animais capazes de sobreviver dentro do clube Sucubus tinham sangue frio e muito pouco abaixo dos músculos. Al, por exemplo, se considerava alguém que sobreviveria sem o coração, rodando em algum tipo de amuleto xamãnico que o sustentaria de energia e bombearia seiva, sustentando aquele cérebro quieto e aqueles músculos mortos.

Levantou alguém como um saco de palha e mostrou para as pessoas como se fosse ouro. No meio do ringue ele podia olhar tudo sem ver indivíduos. Mas naquele dia, como o Bode Carniceiro sustentado acima de sua cabeça, viu a irmã de Rafael sentada em uma mesa central. Aquela mesa era muito cara para suas finanças e muito chique para seu tipo de gente.

Seu tipo de gente pensou consigo, soltando o oponente no meio do tablado com um movimento automático. Esse era o problema em ver rostos: eles contam histórias e os únicos narradores permitidos ali eram eles dois.

Aquela frase, entretanto, ecoou até o número de abertura deles acabar. Eram o segundo combate da noite, primeiro individual e conseguiram distrair quatro ou cinco que não estavam ocupados comprando cerveja no bar. Não que os outros vinte prestariam atenção em Al Simmons, o Arcano XXII. Era só um ato e, com trabalho, poderia se tornar um dos bons – ou pelo menos era o que Al tentava convencer a dona do “clube”. Mesmo assim, trabalhando com gente daquela estirpe como o Bode, ficava um tanto difícil.

Quando saiu do ringue já estava envolto em sombras, a pernas abaixo da sunga em estado febril, a bota pequena abrindo caminho entre homens de terno, mulheres de vestido e variações dessa vestimenta em tamanhos e quantidades reduzidas.

Rafael morreu na noite de 26 de Dezembro, dois anos atrás.

Era um menino de 16 anos que bebia o seu peso em cachaça e apanhava o dobro na rua, que era lucro pois em casa a sova era o dobro do triplo. Al ainda lembrava de como era leve alçar Rafael e como ele escapava com naturalidade das mãos. Vinte e seis de dezembro era uma terça-feira naquele ano, semana corrida, mas sem treino.

Como usava somente sunga, bota e protetor bucal, para Simmons não foi difícil se vestir. Distraiu-se um pouco, fazendo uma busca rápida de olhos, mas não pode encontrar ali o par devido. Vestiu-se de calça de moletom, puxando até a costela. A camiseta branca era grossa, quase feita de lona e pesava mais do que o aparente. O cabelo já molhado e perdendo gel parecia ranço. As botas ele usava as mesma, sentindo três cicatrizes na altura do calcanhar.

Saiu do frio backstage sem trocar uma palavra. O silêncio de sua mente calou o barulho dos futuros números; mesmo assim, não foi tão difícil pois muito dos principais ainda estavam no escritório da sucursal, ali no centro da cidade, perto das avenidas. No clube Sucubus ficavam, de começo, só as garçonetes, as servideiras e os atos de abertura. Era o que bastava para seus “passarinhos curiosos” ficarem na jaula de começo, dizia a boca rubra cheirando a sangue.

Saindo para fora dos bancos de madeira podre iluminados por luz amarela e dos armários enferrujados, Al adentrou o clube. Um contra-baixo dava o pulso, uma guitarra gemia ao fundo, esfaqueada por dedos cortados de um ex-funileiro que devia drogas. O baterista era seu marido e ficava ali para garantir que o esposo pagaria a divida sem dobra-la.

O cheiro era arrebatador, misturando sexo, álcool e vontade. Precisaria um caminhão de santas para purificar aquele lugar e o dobro de putas para torná-lo respeitável.

Então os rostos se tornaram mais convincentes, humanos. O ringue se revelou em uma parte porcamente iluminada ressoando madeira e física. Os copos iam e vinham. O bafo de queima que a cozinha exalava estava próximo de um matadouro – o que não era raro, suspeitava o lutador.

Então aquela figura musculosa e baixa viu-a solitária na mesa, olhos fermentando tudo, tentando criar vida naquela matéria que se decompunha pessoa a pessoa a frente dela.

Al só pode se sentar.

Olharam-se em silêncio. Rute tinha duas tatuagens, uma abaixo do olho esquerdo e uma acima do olho direito. Fora isso não possuía marcas. A pele era vermelha, erguida de uma terra de pedras. O cabelo branco não refletia luz e estava preso. Pesava o dobro do irmão, era forte e larga, viva, apesar do fato de estar e isso já ser motivo para não ser.

O lutador mal pode perceber o sinal e um copo já estava a sua frente. Bebeu sem perguntar, pois não estava pagando e não queria realmente saber, mesmo que fosse, de fato, curioso. Ela lhe empurrou um ponto, ele colocou no ouvido. Ela passou a língua nos dentes. O ponto era de ouro e possuía a marca do clube, nunca dado a lutadores, somente membros da diretoria que, certamente, não ligavam muito para aqueles atos de abertura com o qual Rute tinha ligação mínima. Um maço de dinheiro caiu na mesa e ela saiu, Al veio atrás.

A noite já avançava, vermelha e embaçada, água entrando abaixo da pele trazendo a profecia da chuva de amanhã como um João Batista cuja cabeça ficará acima do pescoço e dos céus. Rute falou primeiro enquanto caminhava lado a lado sem se olhar.

“Isso estava atrás do olho do meu irmão, colado nos olhos soltos dele. Eu vi antes dos Milicos aparecerem, foi fácil de tirar, apesar de ser quem era. Ele não ia se importar sabe?”

“O clube é um lugar caro”, mas era difícil ouvir Al falando para dentro. Ela somente o olhou, a cabeça em ângulo de interrogação.

“O clube, eu digo, é caro para entrar se você não trabalha aqui e, se você trabalha aqui, você não pode sair sentando nas mesas esse horário”

“Para gente do nosso tipo é só os restos, eu lembro. Gente sem brilho no olhar, sem fogo. É isso que você é, Al? É isso que meu irmão achava?”

“Não, mas o que ele achava não importa, na verdade–” e então ela o parou e arrancou o ponto da mão dele.

“1955, vinte anos atrás, um velho de nome Adamastor morreu em um acidente de carro nas recém construidas rodovias. Minha mãe leu no jornal, várias e várias vezes, com sua mania de grandeza, sobre como aquele homem era importante, rico, eloquente e sem sobrenome. SEM SOBRENOME veja só se pode? E rico assim?

Não era possível, mas era real, como várias coisas. Então ela guardou em seu diário do extraordinário. Quando ela morreu, graças a Deus, o Rafa guardou aquilo. Diziam que aquele homem tinha brilho no olhar. E ele procurou todos que tinham brilho no olhar. Adamastor é um dos fundadores do Clube Sucubus junto com a Dama. Adamastor estava atrás dos olhos do meu irmão quando ele foi baleado.”

Al sentia o vento levarem as palavras da menina. Era muito jovem para desafiar o vento com o peso de sua bravura. Não podia ter tamanha coragem com tão pouca idade. Muitos ouviam naquela época, principalmente a essas horas. O fusca ronda, ronda e ronda, assim como Satã, carregando sua cesta de boas intenções.

Al só pode pensar no peso de Rafa e a felicidade nos olhos que, enfim, se tornavam fontes quando ele colocava sua mascara. E Simmons, inconsciente, não se deixava ser amigo, não era possível dentro de si. O problema é que por Rafa não nutriu ódio. Rafa era um bom ato, era uma boa escada. Ela leve e aprendia rápido os espaços nos quais o ringue funcionava. Falava muito, mas ouvia o dobro; gostava do treinador, mas não muito, o suficiente para ter o mediano respeito que Al dava.

Quando morreu, o lutador foi até o local três dias depois e conversou com um porteiro para confirmar. Duas traduções depois recebeu o relato completo do crime e um café passado na hora.

Sua irmã conheceu de longe, ouvindo as conversas de ambos quando ela ia buscar, vendo as marcas em seu rosto e um relato distante do pai vivo e da mãe morta, nenhum melhor que o outro. Vieram do sul no trem, trazendo falsa honraria e marcas. Os filhos eram vermelhos como a terra, os pais, nem tanto, só quando a raiva os aplacava, o que não era raro. Al nunca se meteu; de fato, ninguém do clube, inclusive. “Não é da nossa conta se não ta na tabuleta” era o mantra comum.

Mas ali estava Rute, escrevendo a ouro na tabuleta, manchando com o sangue do irmão a noite já vermelha. Infelizmente, para ela, Al ligava para poucas coisas no ringue e seu irmão, por azar, estava no quadrado errado, pois no seu havia concreto e não cordas.

“Seu irmão roubou um ponto de ouro e agora ele morreu” e deu de ombros “não sei porque isso me rendeu conhaque e uma companhia para a casa, mas se não for incomodo, eu prefiro seguir sozinho”

“Ei, EI!” disse segurando pelo braço o pequeno casco de gente na madrugada “Você era amigo dele não? VOCÊ ensinou ele as regras do clube e as coisas do ringue! Deve ter alguma coisa”

“Não, eu só precisava de alguém novo e ele tava lá” disse em mono tom, olhando fundo nos olhos da menina que, percebia agora, não devia ter mais de 20. “Eu nunca odiei seu irmão.”

O amargo dentro da boca de Rute não estava em nenhuma tradução da bíblia e nem o veneno das pragas do Egito antes dela poderia ser tão ruim. Sentiu-se sozinha e viu músculo em cima de músculo, um pequeno homem curvado de branco sair andando através de São Paulo. Olhou para o ponto de ouro na mão, passou a mão e viu um pouco de sangue. Então sentiu frio.

 

Rute, sobrenome desconhecido, foi encontrada morta abaixo do viaduto. Na manhã seguinte não havia manchas sobre a passarela na qual andara e seu corpo estava tão frio e conservado quanto um boneco de loja. Seus cabelos brancos, entretanto, ficaram um pouco manchados e sua pele foi eternamente vermelha, enterrada perto do irmão em um cemitério comum e sem lápide.

 

 

O clube era fumaça e luz. Al enlaçou Bill Cabeludo pela cintura e o plantou de peito no chão, caindo em cima das costas e rapidamente rolando para seus pés. A luta acabou logo em seguida, com Al vitorioso e alguns aplausos. A porta do vestiário não se abriu para ele, somente uma mão com uma toalha branca e um aviso: “A dama te espera acima do mesanino”

Não no centro pensou consigo, sentindo a falta de importância que tinha. Subiu as escadas acima das escadas e foi parar em um sótão com cheiro de carvalho e calor. O sabor no ar era de pecado antigo, romano. Havia vento, mas não tinham aberturas ali. A luz era amarela e forte, vindo de lâmpadas do século passado ou de um futuro irreconhecível e tacanho. A dama usava uma jaqueta roxa, sua cabeça raspada carregava um óculos redondo e um cigarro era manchado por sua boca vermelha.

 

Foram deixados sozinhos em uma sala com uma mesa, duas cadeiras, um cofre e uma garrafa de pinga.

 

“Eu não me lembrava de você, Al. Foi estranho ouvir um nome que meus ouvidos não sabiam que sabiam. Eles gostam de saber e talvez devessem conhecer o seu. Contudo, não ouviram muito lá embaixo não é”

 

Al encarava a parede de madeira atrás dela, transformando-a em um borrão curvo

 

“Falta material”

 

“Sempre falta e, ainda assim, é tudo o que a gente tem nesse mundo. Não falta matéria, mas méta-matéria. Estranho o Arcano XXII não ter nem um pouco de magia. Sabe, Al, não se pode roubar o brilho nos olhos, ele deve ser conquistado acima da terra.” E lhe sorriu com todos os trabalhos do diabo, carregando um em cada dente.

 

Ela mordeu a boca e saiu sangue. Manejando seu rosto, deixou que uma gota pingasse na mesa. Depois coloriu seus lábios.

 

“Depois de três anos Al. É isso né? Bom, depois de três anos, bem vindo ao Sucubus, acho que esta na hora de nós te darmos um novo tipo de visão.”

 

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